Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor; como a alva, a sua vinda e certa; e ele descera sobre nos como a chuva, como a chuva serôdia que rega a terra. (Oséias 6:3)

11 Discipulado

LIÇÃO 11 – DISCIPULADO 

 

“Indo, portanto, discipulai todas as nações, (…) ensinando-os a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado.” (Mt.28:19,20)

 

I. INTRODUÇÃO          

A vida cristã tem muito em comum com a vida natural. Como na vida natural, o homem nasce (de novo), cresce, amadurece e gera filhos (na fé) para dar continuidade a sua linhagem (espiritual) – é o ciclo da vida em Cristo Jesus. Daí por que o Novo Testamento, ao se referir à vida cristã, usa verbos do tipo: “gerar”, “nascer”, “crescer”, “amadurecer” e substantivos como: “criança”, “adulto”, “pai” e “filho”.

Ora, para crescer espiritualmente, o cristão deve passar por um processo de treinamento (educação e formação espiritual) que o ajudará a alcançar “a medida da estatura de Cristo”. O discipulado é o método bíblico de ensino por excelência pois visa à construção de uma comunidade de pessoas maduras na fé e comprometidas umas com as outras.

           

II. CONCEITO DE DISCIPULADO      

Etimologicamente, a palavra discípulo (mathetés, no grego) significa “aluno”, “aprendiz”. O antônimo desta palavra é discipulador (didáskalos, no grego) que quer dizer “mentor”, “mestre”  (Mt.10:24).

Na antiguidade, o discipulado era um método comum de ensino. Por exemplo: havia os discípulos dos profetas (Am.7:14); de Moisés (Jo.9:28); de João Batista (Mc.2:18); dos fariseus (Mt.22:16) e de Jesus (Jo.6:66).

Talvez a melhor definição de “discipulado” seja a que foi dada por Keith Phillips em seu livro “A formação de um discípulo”:

 

“O discipulado cristão é um relacionamento entre mestre e aluno, baseado no modelo de Jesus e seus discípulos, no qual o mestre reproduz tão bem no seu aluno a plenitude de vida que tem em Cristo que o aluno é capaz de treinar outros para ensinarem a outros”.        

 

Esta definição encontra respaldo naquilo que Paulo escreveu para Timóteo: “Tu, pois, filho meu, fortifica-te na graça que está em Cristo Jesus. E o que de minha parte ouviste, através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos, para instruir a outros.”   (II Tm.2:1,2)

Da análise deste conceito, observam-se as seguintes características do discipulado:

a)       um relacionamento entre mestre e aprendiz;

b)       baseado no modelo de Jesus;

c)       no qual o mestre reproduz no aluno a plenitude de vida que  tem em Jesus;

d)       para o aluno ser capaz de treinar outros a ensinarem a outros.

 

III. UM RELACIONAMENTO ENTRE MESTRE E APRENDIZ          

Paulo, falando aos seus filhos na fé, escreveu: “anunciamos [Jesus], advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito (maduro) em Cristo.” (Cl.1:28). “Perfeito” aqui significa “maduro” e não “sem defeito”. Paulo sabia que o simples conduzir uma pessoa a Cristo não bastava. Ele deveria treiná-la até ela ser capaz de treinar a outras.

Não há comissão mais clara no Novo Testamento do que a ordem de reproduzir em outros o caráter que o Espírito de Deus criou em nós. Podemos frequentar com assiduidade os cultos da igreja, cantar no coral ou servir como obreiro em nossa congregação. Todavia, estas atividades não substituem o alto chamado de fazer discípulos.

O discipulado é muito semelhante a paternidade. Assim como o pai natural é responsável pelo sustento e educação de sua prole até que chegue a idade adulta, o discipulador é responsável pelo sustento espiritual do seu aprendiz até que este chegue à maturidade cristã. Com isto,  garante-se uma futura geração de crentes maduros na fé que frutificam.

Infelizmente, muitas congregações não passam como disse Juan Carlos Ortiz de “orfanatos”, onde o pastor nada mais é do que seu diretor. Ninguém ali tem pai espiritual. A conseqüência disso são filhos que não amadurecem, mas ficam eternamente crianças (I Co.3:1-3; Hb.5:11-13).

 

IV.  BASEADO NO MODELO DE JESUS

Jesus é o nosso modelo para o discipulado. Por isso, o método de Cristo de treinar as pessoas é de máxima importância.

A Bíblia registra que ele “designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar.” (Mc.3:14). A observação cuidadosa desta estratégia revela que o treinamento de um discípulo deve passar por duas etapas: a) primeiro, o discípulo deve estar com o discipulador para ser tratado no seu caráter, receber ensino e aprender a fazer a obra; b) depois, deve ser enviado a praticar o que aprendeu e fazer discípulos (Mc.6:7).

ESTAR – ao chamar os seus discípulos, Jesus estabeleceu a prática de estar com eles. Essa era a essência de seu programa de treinamento. Foi em virtude desse andar juntos com Cristo que um dos seus discípulos mais tarde escreveu: “O que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros.” (I Jo.1:3). Leia também Atos 4:13.

ENVIAR – o discipulado é um instrumento que visa a ajudar os santos a alcançarem a maturidade cristã para a frutificação. Este objetivo deve ser atingido dentro de um período de tempo razoável, quando, então, o aprendiz se torna mestre (Hb.5:12). Se isto não ocorrer, o discipulado não alcançou o seu objetivo. Por isso, Jesus disse: “todo aquele (…) que for bem instruído será como o seu mestre.” (Lc.6:40). Ao perceber que os seus discípulos estavam maduros, Jesus lhes entregou a liderança da obra de Deus na terra e comissionou-os a fazer discípulos das nações (Mt.28:19,20).

 

V. NO QUAL O MESTRE REPRODUZ NO ALUNO A PLENITUDE DE VIDA QUE TEM EM JESUS

“Formar” é mais que “informar”. Informar é comunicar conhecimentos à mente enquanto que formar é tocar na vida do indivíduo, mudando o seu caráter. Discipular é, portanto, levar o discípulo a um crescimento espiritual em todas as áreas de sua vida.

Todavia, fomos chamados para formar discípulos em cooperação com o Espírito Santo. Se tentarmos formar vidas sem esta dependência do Espírito de Deus, além de fracassarmos como discipuladores, sairemos desta experiência frustrados e desgastados. Aliás, era dessa parceria que Paulo estava falando quando escreveu: “meus filhos, por quem de novo sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós.”(Gl.4:19). Ora, quando ele diz: “até ser Cristo formado em vós” ele está dizendo que não era ele quem estava formando. Todavia, ele reconhece a sua participação neste processo ao dizer que é ele quem “sofre as dores de parto”. Leia também I Co.3:6-9.

O nosso objetivo deve ser levar o discípulo a um relacionamento cada vez mais íntimo com o Pai e o Filho, ensinando-o a ouvir e a obedecer à voz do Espírito Santo. Desta maneira o tornaremos cada vez mais dependente do Senhor e menos dependente de nós. Assim, estaremos praticando uma “paternidade espiritual” responsável e saudável.

Quando o discípulo não corresponde às nossas expectativas, apesar do tempo e atenção que temos despendido com ele, a tendência é ficarmos frustrados ou preocupados. Todavia, nestas horas devemos lembrar que “aquele que começou a boa obra [neles] há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus.”  (Fl.1:6).

Como discipuladores devemos ser “padrão dos fiéis.” (I Tm.4:12). Ora, padrão é algo a ser imitado. Logo, devemos ser o exemplo daquilo que ensinamos, pois o discípulo segue muito mais o que vê em nós do que o que ouve de nós (Jo.13:15; Fl.4:9).

 

VI.  PARA O ALUNO SER CAPAZ DE TREINAR OUTROS A ENSINAREM A OUTROS           

Nenhuma pessoa é um fim em si mesma. Todo discípulo faz parte de um processo que visa   expandir o Reino de Deus. Paulo considerava vão o seu trabalho se seus filhos na fé não se tornassem discípulos maduros que reproduzissem a vida de Jesus em outros (II Tm.2:2).

Se não existir uma pessoa andando hoje com Deus e investindo noutros o que recebeu como resultado do nosso ministério, não temos dado fruto. “(…) acaso não sois fruto do meu trabalho no Senhor?” (I Co.9:1).

 

VII. LEMA DO DISCIPULADO

Muitos anos atrás aprendi uma máxima que tem servido de lema e regra de vida para mim. Quem a puser em prática certamente será bem sucedido na sua carreira de discipulado:

Poucas coisas, bem aprendidas, bem praticadas, bem transmitidas.

 

Wilson Linhares Castro